JAMAICA, OU A VIGÊNCIA INCOMBUSTÍVEL

- Por Davide Loimil

Nom deixa de me maravilhar a trascendência que umha pequena ilha do Caribe chegou a ter no desenvolvimento da música popular moderna. A vigência de Jamaica segue a ser, a dia de hoje, incombustível.

ACTO I: AS ORIGENS DUMHA REFERÊNCIA

Tudo começa na década de sessenta, quando os jamaicanos começaram a desenvolver formas musicais próprias, a raiz dumha original confluência de ritmos chegados dos EUA (boogie, rythm & blues, jazz, soul…), que assentavam sobre umha tradiçom autóctone afro-antilhana (calypso, mento, soca). Assi nacia o ska, e desde esta fecunda matriz, o tempo tornava-se progressivamente mais sinuoso e sugerente; apareceriam o rocksteady e o reggae.


:: this is ska! ::

Vai ser precisamente o reggae quem introduza Jamaica no ámbito internacional de referência, em boa maedida através da profética figura de Robert Nesta Marley. Os músicos mais lúcidos de todo o mundo nom tardárom em perceber e interessar-se pola riqueça insuflada desde as Antilhas. Umha ilha povoada por pouco mais de 2 milhons de descendentes de escravos africanos reclamava a atençom de ícones da cultura ocidental como The Clash, Sex Pistols, Eric Clapton, Keith Richards e Mick Jagger, Massive Attack ou Dj Shadow, por só citar alguns deles.


:: Mick Jagger canta com Peter Tosh em “Don´t Look Back” ::

Desde esta etapa de madurez inicia-se nos primeiros setenta umha vertiginosa evoluçom que colocará Jamaica sistematicamente à vanguarda da música popular.

ACTO SEGUNDO: EXPORTANDO A IDEIA

Os toasters jamaicanos concebírom o fenómeno dj a partir já de fins dos sessenta. As suas origens hai que rasteá-las no contexto dos sound-systems, aqueles gigantes altofalantes ambulantes conduzidos por dj´s que competiam por atraer as audiências populares com as músicas mais exclusivas. Estende-se entom a prática de incluir nas caras B dos singles de 45 rpm versons completamente instrumentais dos temas reggae (os famosos rythms), o qual daria pé à apariçom do toasting: os dj´s começam a falar, literalmente, por cima dos temas instrumentais, ao jeito de locutor radiofónico apresentando a cançome invocando ao público. Esta prática vai colhendo forma até que nos atopamos com um ritmo base, derivado dum tema original que só reconhecemos por certas reminiscências, sobre o qual um mc fala por um micro improvisando para a sua audiência. Jamaica sentava as bases do rap desde os primeiros anos da década de setenta. Serám os filhos dos emigrantes jamaicanos nos EUA quem reparem nesta forma artística do toasting, cultivada polos seus pais, para abrir os vieiros do rap como o entendemos hoje.


:: U Roy emprega o Soul Rebel de Marley como sampler sobre o que rimar. As origens jamaiquinas do rap ::

Por outra banda, outro contingente de negros jamaicanos tomava rumo a Inglaterra, emigrando assi à velha metrópole. Estes jovens instalam-se precariamente nos bairros obreiros ingleses, e ali entram em contacto com os movimentos juvenis do momento, em especial o punk e a new wave inglesa. Assi, jovens negros e brancos bailam, tocam, e protestam juntos. A diáspora jamaicana segue impressionando com a sua pegada.


:: Two Tone, Branco e Negro. The Specials: Too much too young ::

Voltamos às Antilhas. Ali, a palavra reggae era já um termo insuficiente para abranger a efervescência que a música vivia nos anos 70. Do originário ska, a inventiva jamaicana derivou numha série de inovaçons que, mais umha vez, farám da ilha um lugar de passo ineludível para compreender a música contemporánea. Referimo-nos em especial ao surgimento do dub, com base naquelas versons instrumentais (rythms) sobre as que os dj´s construírom o mais remoto precedente do rap. O ritmo cobra sucessivamente um protagonismo maior, com a bateria e o baixo à cabeça. Os produtores descobrem que esta nova formulaçom musical supom um campo tremendamente fértil para a experimentaçom de novas linguagens. Apesar da precariedade de infra-estruturas técnicas próprias dumha ilha do terceiro Mundo, estes proidutores conseguem criar nos seus estúdios de gravaçom atmosferas sonoras envolventes, próximas à psicodélia; Incluem diferentes efectos de som e mesmo ruídos: reverberaçons, ecos,… As vozes som totalmente eliminadas, ou reduzidas a simples frases ou jogos vogais. Para 1.973 aparecem já os primeiros álbumes dedicados integramente ao dub.


:: Os jamaicanos Sly e Robbie, a cara que nunca che mostraram ::

A semente germinaria de novo. Jamaica voltava a ser foco de irradiaçom de frescura e originalidade, de cámbio e revoluçom. A ilha reivindica-se mais umha vez como precursora artesanal neste caso da música electrónica, sobre todo no que se refire a técnicas de produçom (techno, ambient, trip hop drum and bass,…), o pós-punk de finais dos 1970 (o Metal Box de 1979 dos Public Image Ltd. pode ser o melhor exemplo) ou as cenas underground de vangarda do rock ou do jazz dos anos 1990/2000 (o pós-rock de Tortoise, June of 44, etc., ou o jazz de Spaceway Inc.).


:: Horace Andy, veterano artista reggae antes de colaborar com Massive Attack ::

ACTO III: MADE IN JAMAICA
A semana passada fomos, Moncho e eu, ver o documentário Made in Jamaica, de produçom francesa. Nele aborda-se a realidade social jamaiquina na actualidade, ligada às expressons musicais contemporáneas na ilha. Duas sensaçons.

A crescente insegurança na ilha, a estensom e agudizaçom da violência em todas as suas formas, e a precarizaçom (ainda maior) das condiçons de vida junto com a polarizaçom social, figérom emerger um fenómeno novo: o dancehall. A música jamaicana perdeu a sua doçura e sensualidade, sendo substituída polos agressivos ritmos programados e os discursos machistas e homófobos selvagemente vociferados por macarras como Elephant Man ou Lady Saw. A tradiçom roots foi praticamente varrida das ruas de Kingston, e o qualificativo de “nostálgicos” cerne-se ameaçador sobre os seus continuadores, que assistem incrédulos ao espectáculo e parafernália do new hype.


:: old ways are gone… ::

Por outra banda, Jamaica reivindica-se por enésima vez na mais absoluta vanguarda musical. Aquele caldo de cultivo que propiciara a apariçom e desenvolvimento do rap, fermenta hoje no ritmo que provoca furor na América e no Ocidente: o reggaeton. Si, tamém de factura nitidamente jamaicana.


:: O documentário reflite a convivência em Jamaica de diferentes expressons musicais ::

Deixa un comentario